o vinho é branco a tarde cai o dia avança no vento
na boca acorda o último cigarro o poema segue o risco
a claríssima insuficiência
é este o incêndio da tarde o fim do almoço
a violência dos pássaros as crianças dormem a sesta
reclusas na sombra azul dos quartos
mãos sem sentido
arroz na folha de videira muro caiado de branco
e roseiras
gastronomias inexplicáveis contêm a vida e os pátios
aquela noite grega que não soubemos redigir
vespas bebendo da boca das torneiras
escrevo o poema que não lerás nunca
sobre a toalha de plástico da mesa suja
de azeite
a mão esquecida na vírgula acesa do cigarro
a minha solidão vincada a cotovelos no padrão da toalha
as crianças dormindo na
nitidez esquecida da telefonia
Miguel-Manso, Contra a Manhã Burra
5 de Novembro de 2009
Último Cigarro
27 de Outubro de 2009
Dói-me a poesia feita de morte e de ausência
e muito silêncio. Dói-me: como se me confortasse
a dor alheia, como se alguém me aconchegasse
a dor aos olhos e eu descobrisse que não estou só
No frio de uma metáfora onde as mãos se distanciam,
onde as sílabas tremem ao medo e o fim começa devagar.
Na poesia para ninguém. Quando a fome aperta a sede
até ao grito e a memória escorre no horizonte
E as palavras são como madrugadas impossíveis,
inclinadas sobre uma imensidão de rostos e lugares.
Dói-me, a poesia, como se fosse minha a dor
do mundo inteiro: o sangue dos dias inúteis.
23 de Outubro de 2009
Keep the car running
Every night my dream’s the same.
Same old city with a different name.
Men are coming to take me away.
I don’t know why but I know I can’t stay.
There’s a weight that’s pressing down.
Late at night you can hear the sound.
Even the noise you make when you sleep.
Can’t swim across a river so deep.
They know my name 'cause I told it to them,
But they don’t know where And they don’t know
When It’s coming, when It’s coming.
There’s a fear I keep so deep,
Knew its name since before I could speak:
Aaaah aaaaaah aaaaah aaaaaah
They know my name 'cause I told it to them,
But they don’t know where And they don’t know
When It’s coming, Oh! when It’s coming
Keep the car running
If some night I don’t come home,
Please don’t think I’ve left you alone.
The same place animals go when they die,
You can’t climb across a mountain so high.
The same city where I go when I sleep,
You can’t swim across a river so deep.
They know my name 'cause I told it to them,
But they don’t know where
And they don’t know
When It’s coming, Oh! when is it coming?
Keep the car running
Keep the car running
Keep the car running
22 de Outubro de 2009
o poema ensina a cair
O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.
Luiza Neto Jorge, O seu a seu tempo
21 de Outubro de 2009
Sem título
A Invenção do Amor
(...)
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência
(...)
Daniel Filipe, A Invenção do Amor e Outros Poemas

