20 de Novembro de 2009

(...)

Tu és o nó de sangue que me sufoca. Dormes na minha insónia
como o aroma entre os tendões da madeira fria. És uma faca cravada
na minha vida secreta. E como as estrelas duplas consaguíneas,
luzimos um para o outro nas trevas.


Herberto Helder, PHOTOMATON & VOX

16 de Novembro de 2009

Os dias tristes

acomodam-se no meu peito os dias tristes;
falo da cor das aves quando se perdem no esvoaçar das asas
da chuva que cai dos olhos do céu para alimentar a terra
eu sobrevivo e mais não sei senão que acordo
todos os dias para cumprir horários, atraso-me
em estações imaginárias mas entro no comboio
certa de que não mais me encontrarei.

12 de Novembro de 2009

Ardem as perdas



ARDEM AS PERDAS. Já ardiam
na cabeça de minha mãe. Antes
tinha ardido a verdade e ardeu
também o meu pensamento. Agora
a minha paixão é a indiferença.
Oiço
na madeira dentes invisíveis.

Antonio Gamoneda, daqui

(...)


tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo


(...)


Daniel Filipe, A Invenção do Amor e Outros Poemas