5 de Novembro de 2009

Último Cigarro

o vinho é branco a tarde cai o dia avança no vento
na boca acorda o último cigarro o poema segue o risco
a claríssima insuficiência

é este o incêndio da tarde o fim do almoço
a violência dos pássaros as crianças dormem a sesta
reclusas na sombra azul dos quartos

mãos sem sentido
arroz na folha de videira muro caiado de branco
e roseiras

gastronomias inexplicáveis contêm a vida e os pátios
aquela noite grega que não soubemos redigir
vespas bebendo da boca das torneiras

escrevo o poema que não lerás nunca
sobre a toalha de plástico da mesa suja
de azeite

a mão esquecida na vírgula acesa do cigarro
a minha solidão vincada a cotovelos no padrão da toalha
as crianças dormindo na

nitidez esquecida da telefonia


Miguel-Manso, Contra a Manhã Burra

Love Kills #2


(Johnny & June)

27 de Outubro de 2009

Dói-me a poesia feita de morte e de ausência
e muito silêncio. Dói-me: como se me confortasse
a dor alheia, como se alguém me aconchegasse
a dor aos olhos e eu descobrisse que não estou só

No frio de uma metáfora onde as mãos se distanciam,
onde as sílabas tremem ao medo e o fim começa devagar.
Na poesia para ninguém. Quando a fome aperta a sede
até ao grito e a memória escorre no horizonte

E as palavras são como madrugadas impossíveis,
inclinadas sobre uma imensidão de rostos e lugares.
Dói-me, a poesia, como se fosse minha a dor
do mundo inteiro: o sangue dos dias inúteis.

23 de Outubro de 2009

Keep the car running





Every night my dream’s the same.
Same old city with a different name.
Men are coming to take me away.
I don’t know why but I know I can’t stay.

There’s a weight that’s pressing down.
Late at night you can hear the sound.
Even the noise you make when you sleep.
Can’t swim across a river so deep.
They know my name 'cause I told it to them,
But they don’t know where And they don’t know
When It’s coming, when It’s coming.

There’s a fear I keep so deep,
Knew its name since before I could speak:
Aaaah aaaaaah aaaaah aaaaaah
They know my name 'cause I told it to them,
But they don’t know where And they don’t know
When It’s coming, Oh! when It’s coming

Keep the car running

If some night I don’t come home,
Please don’t think I’ve left you alone.
The same place animals go when they die,
You can’t climb across a mountain so high.
The same city where I go when I sleep,
You can’t swim across a river so deep.
They know my name 'cause I told it to them,
But they don’t know where
And they don’t know
When It’s coming, Oh! when is it coming?

Keep the car running
Keep the car running
Keep the car running

22 de Outubro de 2009

o poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


Luiza Neto Jorge, O seu a seu tempo

21 de Outubro de 2009

Sem título

Penso: morre-se tantas vezes pelo excesso de emoções como se morre outras tantas pela falta delas. Parece não haver um meio termo. O equilíbrio é algo momentâneo e, não raras vezes, sucede quando estamos sós connosco mesmos. Por exemplo, no instante em que estamos dentro de um autocarro, sem um destino concreto ou a pressão do tempo a contar no relógio, e começa a chover (a chover a sério). Então, abstraímo-nos de tudo o que está à nossa volta e ouvimos apenas a chuva a cair: a chuva a bater contra os vidros numa cadência grave e absoluta. Tudo faz sentido e tudo está irremediavelmente perdido. A paisagem, se vista de dentro do autocarro em andamento, pode representar tudo aquilo que deixámos para trás - por força do inevitável ou do intraduzível - e se vai encaixando, naturalmente, no seu lugar devido. Por outro lado, as sucessivas paragens que o autocarro faz, a liberdade de se sair ou não em determinado sítio, representam que o que está para vir (que é sempre incerto) não é controlável mas implica uma escolha: a nossa. E, nesta medida, vamos sempre arranjando formas de cair uma e outra vez, mesmo quando julgamos ter uma certeza inabalável. Porque, por vezes, tudo acontece numa fracção de segundos. E houvesse, ao menos, uma explicação para isto. Mas não há. O que há são estes pequenos instantes em que uma estranha calma nos assalta, esta espécie de equilíbrio em que o universo, por momentos, existe. Nós existimos, e nada mais importa.

A Invenção do Amor

(...)

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

(...)


Daniel Filipe, A Invenção do Amor e Outros Poemas